Mande a um amigo

 

 

O SACO MAGICO E NICOLAU

Hoje acordei com menos frio. De repente senti um calor enorme e vi que tinha uns euros a mais. Olhei para o calendário. Dia 24 de Dezembro. Que dia maravilhoso para se chamar Nicolau. Fui até ao centro da cidade. Queria comprar um bom peru, um casaco, queria tanto aquele relógio e um cachecol... Se calhar umas luvas também não era má ideia. Já não tenho idade mas apeteceu-me comprar brinquedos, e talvez o fizesse. Não tenho carro. Como farei para levar tudo para casa? Bem, o meu avô, no último Natal, deu-me um Saco Mágico. É incrível, pode meter-se tudo o que quisermos dentro dele e nunca fica cheio. É a coisa mais incrível e mágica que eu alguma vez vi. Nunca ganha peso tenha o que tiver dentro dele. Acho que é o que eu vou levar comigo para trazer as compras. Afinal acabo por trazer sempre mais coisas para além da lista que faço. E então saí de casa. No caminho até ás lojas passei por crianças seminuas e esfomeadas como acontece sempre que saio do meu condomínio fechado. Tentei não dar importância. Mais adiante vi dois mendigos a aquecerem-se ao sol, congelados e tristes. Passei pela ilha da Rua Sul. Todos estavam calados. Eram pobres, pensei eu. Os pobres têm a mania de estarem sempre tristes. Então ouvi a voz de uma menina perguntar:"Mãe, onde vamos logo à noite?" A mãe, um pouco pensativa disse:"Vamos ao Albergue." O "Albergue", na minha cidade, é uma casa conhecida por dar sopa e dormidas aos mais necessitados. Só lá fui uma vez. Por acaso foi para falar com o meu amigo Nicolau. Todos os Nicolaus têm qualquer coisa de diferente. Eu também me senti diferente. Depois de quatro horas em lojas, a comprar uma enormidade de coisas o saco estava de facto volumoso mas leve como uma pena. Lembrei-me então do que vira e fiquei diferente. Este Natal não queria ficar uma vez mais com tudo o que comprara e sem ninguém com quem partilhar as prendas. Sem ninguém com quem falar e rir. Sem ninguém a quem dar. Sem ninguém, mais uma vez... NO NATAL. Peguei no meu telemóvel topo de gama e telefonei então ao outro amigo do Albergue, "O NICOLAU".

- Estou, Nicolau? Aqui é o Nico, olha, posso passar por aí à noite?

-Podes Nico, mas traz qualquer coisa porque não temos quase nada.

- Não te preocupes Nicolau. Esta noite, eu levo o meu Saco Mágico.

E foi assim que à noite, eu, Nicolau, pude ver que não era noite. Passei a noite no "Albergue" a esvaziar o saco que nunca se esvazia. Não era noite porque quando de lá saí era manhã de Natal e eu estava mais feliz do que alguma vez estivera ou sentira. Sentia-me feliz, quem estava comigo, feliz ficou e Nicolau rejubilou. Dá jeito às vezes ter um Saco Mágico que nos obriga a passar pelas ruas da cidade quando vamos às compras para nós, pensando miraculosamente e só daquela vez, também, nos outros. Esta manhã ofereci o Saco Mágico ao meu amigo NICOLAU e senti-me bem comigo outra vez. Como há muitos anos não acontecia. Obrigado Nicolau por teres aceite o Saco Mágico.

 

Autor ©: Peter Lee Dolphein

Braga/Portugal, 27th November 2007

Publicado em Jornal ”O VALENCIANO (pagina 10) – Em 19 de Dezembro 2007

Publicado em Jornal ”TRIBUNA PACENSE (pagina 14)– Em 21 de Dezembro 2007

http://www.peterleedolph.com

 

Last Modified April 28th 2007 Contact me Terms of Use & Privacy       Go to top